O que é o 1º dia do ENEM 2023
No primeiro dia do ENEM 2023, o candidato resolve 90 questões de múltipla escolha, com alternativas de A a E. A prova reúne duas áreas: Linguagens, Códigos e suas Tecnologias e Ciências Humanas e suas Tecnologias. As questões 1 a 5 são de língua estrangeira, e o candidato escolhe entre inglês e espanhol.
A correção segue o gabarito oficial do INEP. Cada questão tem uma única alternativa correta, e você não precisa escrever nada: precisa identificar, entre cinco opções, a que o texto sustenta. Por isso, grande parte do estudo é treinar o modo de ler o enunciado e de descartar alternativas.
Um ponto vale para toda a prova: quase todas as questões partem de um texto, uma imagem, um cartaz, um cartum, um gráfico ou um poema. O comando da questão ("de acordo com o texto", "infere-se que", "tem por finalidade") diz o que se espera de você. Começar pelo comando e só depois ler o texto costuma poupar tempo.
Questões 1 a 5: inglês ou espanhol
Não é preciso conhecer vocabulário raro. As questões pedem que você entenda a ideia central e a intenção do texto. Alguns exemplos do padrão:
- Cartaz de campanha: o cartaz ligava o desperdício de comida à degradação ambiental (os lixões). A resposta era "o desperdício degrada o ambiente". Outras alternativas citavam lixões, mercados e desnutrição, mas só uma resumia a relação que o cartaz estabelecia.
- Poema com "No man is an island": o poema diz que todo homem é parte do continente e que a morte de qualquer um diminui a todos. A expressão evoca interligação, não solidão nem medo da morte.
- Poema sobre refugiados: a enumeração de cargas diferentes (diplomas, profissões, guerras, línguas) mostra a pluralidade de vivências. Quando um texto lista itens variados, pergunte o que a lista, no conjunto, quer mostrar.
- Poema de Tato Laviera: o poema mistura inglês e espanhol o tempo todo, o que celebra a fusão bicultural. A forma do texto também é pista de sentido.
- Cartum de escritório: a fala é irônica. Todos os funcionários são visualmente idênticos, o que contradiz a alegação de que não há discriminação por idade, raça ou gênero. Em cartum, desconfie da fala tomada ao pé da letra e compare-a com a imagem.
Na opção por espanhol, o padrão é o mesmo. Exemplos:
- Em um poema de escritora costarriquenha sobre a identidade da mulher negra, os advérbios repetidos ("rotundamente", "categóricamente") reforçam a firmeza da afirmação.
- Em um poema sobre gastronomia, os pratos aparecem como "identidad" do povo espanhol.
- A expressão "cortina de humo" indica que o manipulador busca mascarar a verdade.
- A canção "Que quede claro", da banda cubana Orishas, denuncia um ato xenofóbico e racista sofrido por um imigrante negro no metrô e expressa indignação.
A regra prática é identificar o tema, o tom e a intenção antes de olhar as alternativas.
O que se pergunta em Linguagens
As questões da área tratam de como os textos funcionam. Estes são os assuntos que mais aparecem no material de referência.
Funções da linguagem e voz do poema. Em um poema que descreve um nó na garganta que impede a fala clara, a função emotiva serve para expressar a dificuldade de comunicação. Em outro, depois de evocar amores passados, o eu lírico se entrega em paz ao presente amor: a serenidade vem da entrega, não da frustração. Em um terceiro, a recusa de grandes declarações solenes e a imagem banal de migalhas de pão na mesa mostram um amor que recupera a tradição lírica, mas se ajusta à visão contemporânea ao diluir em banalidade a comoção.
Recursos de progressão e coesão. A repetição de "todos" reforça o caráter universal e repetitivo dos amores. Quando a questão pergunta qual recurso constrói uma ideia, procure o elemento que se repete ou conecta as frases e diga que efeito ele cria.
Narração e descrição. A descrição minuciosa e sensorial do modo obsessivo com que um personagem se veste com roupas da mãe, contada por uma empregada, caracteriza um fetiche narrado de forma impressionista. Em outro texto, o narrador contrapõe a solenidade histórica dos inconfidentes à imagem repugnante de ratos e de um gato caçador: o efeito vem do contraste.
Gêneros e finalidade. Perguntar "qual é o objetivo do texto" é perguntar pelo gênero:
- um discurso de homenagem a Machado de Assis usa metáforas para falar da vida e da obra;
- uma carta dirigida a governantes e legisladores pede reflexão sobre investir na saúde do idoso;
- um anúncio feito durante o isolamento da pandemia convida a mulher a denunciar a violência;
- um texto sobre trânsito defende atenção, civilidade e compaixão, e por isso o objetivo é sensibilizar, não listar causas nem divulgar números.
Variação linguística e língua como tema. Este é um dos assuntos mais frequentes:
- Libras passa por variação como qualquer outra língua (regional, etária, de gênero).
- O preconceito contra o português brasileiro se deve à crença numa língua ideal, que alguns falantes lusitanos atribuem a Portugal.
- Um dicionário de termos médicos regionais ajuda os médicos a compreender os sintomas descritos pelos pacientes.
- Linguagens técnicas de advogados, médicos e burocratas funcionam como obstáculo à compreensão popular.
- A "cantiga de voltar" preserva a ancestralidade africana pela tradição oral.
Argumentação. Citação e dados estatísticos servem para reforçar um argumento. Em um texto sobre poesia e violência, os dados do Atlas da violência reforçam a denúncia de que negros são alvos preferenciais.
O que se pergunta em Ciências Humanas
A área junta História, Geografia, Filosofia e Sociologia, com muita questão de cultura e arte. O enunciado costuma trazer o conceito dentro do texto, e a questão pede que você o reconheça.
História
- Declaração Balfour: prometia um lar nacional judeu sem prejudicar os direitos das comunidades não judaicas, mas resultou em conflitos territoriais na Palestina. O governo inglês foi incapaz de mediar esses conflitos.
- Expansão marítima: exigiu grande quantidade de madeira para a construção naval e agravou a crise florestal.
- Incas: impunham a religião oficial, mas toleravam que os povos dominados continuassem a cultuar seus deuses locais. Eram flexíveis nos costumes religiosos.
- Ditadura militar: o caso do jornalista morto sob custódia e o clima de medo e silêncio atestam mecanismos institucionalizados de repressão. Os sindicatos rurais foram usados para conter tensões políticas e as Ligas Camponesas.
- Imigração: as cartas trocadas com o país de origem possibilitavam a circularidade cultural entre a sociedade de partida e a de acolhimento.
- Século XIX: um texto de 1828 que critica a negligência do governo em levar a vacina ao Brasil expressa a ideia iluminista de que a responsabilidade dos governantes assegura a saúde dos povos.
Geografia
- Relevo: o Himalaia continua crescendo pelo encontro (colisão) das placas Indiana e Eurasiática.
- Ação humana no espaço: palafitas sobre o mangue mostram interferência no espaço geográfico. A cabruca, agrofloresta que conserva a biodiversidade, é exemplo de uso sustentável dos recursos naturais. A agricultura urbana ocupa espaços ociosos da cidade.
- Terra e solo: a grilagem (apropriação de áreas devolutas) é o problema central num texto sobre desmatamento. A ocupação desordenada reduz a fertilidade do solo e impede sua recuperação.
- Clima: simulações de aquecimento global pedem uma medida de mitigação, que é controlar as emissões de carbono.
- Geopolítica: a migração da etnia Han para Xinjiang, região estratégica de fronteira, faz parte da estratégia de assegurar a integridade territorial chinesa.
- População: a queda da taxa de fecundidade no Brasil (de 6,3 para 1,5 filhos por mulher entre 1960 e 2020, segundo o gráfico) está associada à participação feminina no mercado de trabalho.
Filosofia
- Descartes: é dualista, pois separa mente e corpo. Serve de contraponto a Merleau-Ponty, para quem a raiva está no corpo.
- Sartre: o existencialismo afirma a liberdade de transcender a própria situação. Quem acredita que tudo já está previsto, como o personagem Gerinaldo, nega essa possibilidade.
- Sofistas: são marcados pelo uso persuasivo do discurso. Brás Cubas diz ter aprendido só a retórica e o vocabulário "para as despesas da conversação", sem profundidade.
- Freire: a consciência da realidade opressiva leva os educandos a transformá-la, o que implica participação sociopolítica.
- Perdão: depende da livre decisão do outro de aceitar ou recusar. É uma relação mediada pela autonomia dos indivíduos.
- Foucault: o sistema judicial gere de modo diferente as ilegalidades, conforme a classe social.
Sociologia, cultura e arte
- Etiqueta: o garfo, item de luxo restrito às classes altas, mostra a etiqueta como distinção de classe.
- Lei Maria da Penha: negar dinheiro, esconder documentos e destruir pertences são formas de violência patrimonial.
- Desigualdade: as práticas corporais de lazer se concentram nas populações mais abastadas, e o fator central é a desigualdade entre classes sociais.
- Estereótipos: a imagem de Jane Jetson como má motorista reflete construções imaginárias cristalizadas sobre o feminino.
- Tempo livre e trabalho: num texto crítico, a diversão reproduz as próprias mercadorias e o processo de trabalho do capitalismo. A mágica da inteligência artificial esconde o trabalho invisível de trabalhadores mal pagos.
- Racismo e gênero: a remoção do termo "mulambo", de origem racista ligada à escravidão em Angola, reflete a condenação do preconceito racial. O reconhecimento tardio de Lina Bo Bardi se liga às lutas por equidade de gênero.
- Manifestações culturais: o Marabaixo transformou uma origem trágica em danças, cantorias e festas religiosas. O rap dos povos originários funde uma expressão urbana contemporânea com a cultura indígena. A dança que dialoga com religiões afro-brasileiras é uma reelaboração estética erudita, não uma representação mimética dos cultos.
- Arte e poder: o nazismo classificou a obra de Lasar Segall como "Arte Degenerada" por não se alinhar à sua estética. Os chinesices nas igrejas mineiras foram possíveis pelo intercâmbio transcontinental de porcelanas e objetos chineses.
Armadilhas comuns
- Alternativa verdadeira, mas fora do comando. Uma opção pode ser um fato correto e ainda assim não responder à pergunta. Volte sempre ao verbo do enunciado.
- Palavras absolutas. No caso do incêndio do Museu Nacional, a resposta correta fala em dano irreparável à memória e à identidade nacionais, porque muitas gravações eram de línguas já extintas. Alternativas como "inviabiliza o estudo da língua do povo Tikuna" ou "resulta na extinção da cultura de povos originários" exageram o que o texto diz.
- Parte pelo todo. Num texto sobre propagação de informações, o que explica a eficácia é o conjunto de meios disponíveis na época (ordens mendicantes, jograis, peregrinos, correios das cidades), não a velocidade, que era modesta: 30 quilômetros por dia.
- Ironia e imagem. Em cartuns e charges, o sentido está na distância entre o que se diz e o que se vê.
- Dois textos. Quando há Texto I e Texto II, a resposta quase sempre exige relacionar os dois. O Texto II costuma fornecer o conceito que explica o Texto I.
- Termos parecidos. Alternativas com palavras de um mesmo campo (flexível, tolerante, admissível, compreensível) testam a precisão. Pergunte a que aspecto cada adjetivo se aplica no texto.
- Conhecimento externo. Mesmo quando você sabe muito sobre o assunto, a expressão "de acordo com o texto" pede a resposta que o texto sustenta.
Como estudar
1. Treine a leitura do comando. Antes de ler o texto, sublinhe o que a questão pede: finalidade, inferência, efeito de sentido, causa ou consequência. 2. Justifique cada resposta. Ao corrigir uma questão, escreva em uma frase por que a alternativa correta serve e por que as outras não servem. Esse hábito vale mais do que resolver muitas questões sem revisar. 3. Monte um caderno de conceitos. Registre, por disciplina, as ideias que aparecem nos exemplos acima: dualismo, existencialismo, sofistas, violência patrimonial, integridade territorial, entre outras. Anote o conceito, um exemplo e uma frase de definição. 4. Estude por imagem e por texto. Resolva cartazes, cartuns, gráficos e poemas separadamente, pois cada formato exige uma leitura diferente. 5. Escolha o idioma cedo. Decida entre inglês e espanhol e resolva textos curtos nessa língua com regularidade, sempre buscando tema, tom e intenção, não tradução palavra por palavra. 6. Faça blocos de prova. Resolva grupos de questões em tempo corrido e depois revise os erros por tipo: leitura do comando, conceito não sabido ou alternativa exagerada. 7. Releia os erros. Volte às questões erradas alguns dias depois e tente justificar a resposta sem consultar a correção.
Pratique
Depois de ler este guia, o melhor passo é resolver questões e conferir cada resposta pelo gabarito. Resolva as questões do 1º dia do ENEM 2023 em /learn/enem-2023 e aplique os critérios acima a cada alternativa.